sexta-feira, 31 de julho de 2009

Do prazer



Carolina não se lembra bem. Acha que tinha 12 ou 13 anos, no máximo 14. O que ela realmente lembra é que, nessa época, dividia o quarto com a louca da sua irmã. E era uma missão impossível lutar por espaço no guarda-roupa. Quase inútil lutar pela privacidade com aqueles amigos hippies e namorado maluco que invadiam o lugar e suas fumaças. Carol, hoje com seus atuais trinta e poucos anos, se lembra daquele pôster do Raul Seixas do lado da cama. Ela acredita que é por isso que não gosta do Raul Seixas. Uma certa ânsia daquele violão frouxo e daquele olhar... Ler antes de dormir era briga na certa. “Apague essa luz, estou com sono”. Escândalo junto ao pai. A luz apagada e a insônia instalada. Saco. Será que é coisa de irmã mais velha ser mandona e ser muito louca? “Mas como ela consegue ser hippie ao mesmo tempo?” Enfim... Tinha ainda as falações noturnas que deixavam Carolina apavorada. Dormindo, a sua irmã sentava na cama por horas durante a madrugada. Seus livros escolares empoeirados embaixo da cama. Sem espaço. Sem ar. Sem privacidade. Sem calma. Sem dormir. Sem ler. Assim não dava. Dividir quarto com irmã mais velha louca, sonâmbula e egoísta? Carol precisava fazer alguma coisa. Ela queria o seu espaço a qualquer custo. E, no seu próximo aniversário queria de presente de seu pai, móveis. Ele lhe daria os móveis para o quarto, mas ela tinha a missão de desativar um quartinho entulhado com armários velhos, cadeiras frouxas, brinquedos, sapatos. Mãos a obra. Ficou o ano todo se livrando das tralhas e, finalmente, os móveis chegaram. Ela queria colchão de mola, cama de ferro, armário embutido em toda a parede, escrivaninha, cadeira, estante para os livros. Tudo. Ganhou o colchão, a cama, um criado mudo e o armário embutido. Já estava no lucro. “Ai, finalmente!” Mas não foi bem assim, porque o seu avô adoeceu. Ficou muito doente e foi morar em sua casa. No seu quarto. No seu quarto novo. Preparado especialmente. Todo alvo. Branco. E assim foi. Por vários meses o vovô ocupou o lugar. Acabou se acostumando, a dor que o avô sentia era maior que tudo, não poderia competir, também não queria competir. Só uma tristeza em dose dupla, sem gelo. Voltou a dormir com a irmã.

***
Alguns anos depois, seu vovô se foi. Já tinha se acostumado com tudo aquilo de novo. Mas também havia se habituado com toda a situação nova e com o avô perto da família em seus últimos dias, pedindo atenção como uma criança frágil. E o quarto, ah, ele não era mais seu. Não mais lhe pertencia, até já tinha o esquecido. Impulso amortecido. Inércia. Mas, estranhamente, quando viu aquele quarto vazio, à espera de outro corpo para ocupá-lo, sentiu um prazer como nunca supunha em sã consciência que esse troço existisse. O prazer. De verdade. Maior do que aquele que teve quando pegou as chaves do primeiro apartamento onde morou, quando decidiu sair da casa de seu pai. E abandonar aquele quarto que não era já tão alvo. E nem tão branco. Mas era seu. E sempre será seu.

2 comentários:

ligiane disse...

adorei....... (Ligiane)

Gláucia Santinello disse...

Oi Tata!


kkkkkkkkk