sexta-feira, 31 de outubro de 2008

da Série: Ara and Chas – parte I



“Deixem a Amy em paz”. Em caps lock.

Ela não disse. Ela sentiu. E simplesmente Chas foi atingido porque chegaram aos seus olhos após os dedos de Ara percorrerem as letras no teclado. Poderoso “enter”. E o leitor dos diários virtuais foi capturado pela frase na imensidão azul e misteriosa do mundo da Web.

- O que causa o seu tormento?

Coçou a barba de forma instintiva. Acendeu o cigarro. Foi acordar sem dormir, obcecado pela angústia na tela. Está na hora, agiu: café e cigarros para começar. De novo foi dar aulas. E quis esquecer.

Ara grita. Ela tem o seu “Blake” e chora no quarto barato de hotel. Simplesmente sozinha. Indefesa e sem entender porque ele não está lá. Às vezes acontece. Às vezes nada acontece. E, sometimes ela usa palavras como “raw”, “visceral” and “heartfelt” as praise.

Mas ela não costuma elogiar.

Ara é do tipo de mulherzinha que rebola despretensiosamente na calça jeans surrada e justa. Nós pés, a clássica sandália de plástico – vermelha. A nada óbvia franja caída nos olhos com maquiagem drástica. Piercing no umbigo e esmalte com glitter. “Mulherzinha. Mas com bolas”. Assim como Camila, na sua “Máquina de Pinball”. Amy joga bilhar. E sabe que “love is a losing game”. Na bolsa, o seu Machado de Assis rabiscado e seu estojo desbotado. Cartões do metrô na carteira Gucci amarela. Ela é assim.

Naquele domingo ensolarado de excesso, Ara o viu de chinelos, bermuda Levi’s – claro que ele não usa “Tassa”; não se mistura aos comuns na terra dos chapéus e botas. Aquela mesma camiseta verde do Beastie Boys e o chinelo holandês. Blasé. Desdenhou o passeio e todo aquele human juices sem nenhum jazz. Acompanhado. Mas ele sente-se só. É nítida a falta de sincronicidade do par. Sabe, Frank [o Zappa], você tinha mesmo razão: quem sabe faz, quem não sabe ensina e quem não faz nem uma coisa, nem outra, vira crítico. Nelson Rodrigues sabia também que tem gente que escreve sobre o que não sabe para aquele que não sabe ler. Mas isso não importa agora. Em nenhum momento isso importa, nesse quarto vazio, qual o motivo de ela se lembrar destas citações estúpidas? Ara está bêbada e transtornada, encolhida na parede enfumaçada.

“Ele é um estúpido”, ronronou em seus escritos. “Eu sei que não há nada que fica entre eu e o meu homem quando os nossos lábios se tocam”. Mas ela sabe que é uma estupidez. “Uma adorável estupidez”.

Mas ele se foi e Ara não costuma elogiar. Não quer ser fina, nem rebuscada. Nem tampouco se sentir só.

***

Chas gosta de Zappa. Mas no caminho da universidade, ouviu Frank [o Sinatra]. Sem esquecer do vermelho da tela branca. E mesmo sem nunca ter amado alguém, não conseguiu pensar em mais nada, apenas no desespero daquela garota sem o seu “Blake”.

- Meu corpo está um desastre.

E seguiu...



Continua...